Poucas são as pessoas que têm a feliz alegria de estar numa
final de campeonato. Seja regional, Copa do Brasil, Brasileiro, Libertadores,
Supercopa, Mundial, dentro de um nicho de milhões, você estar ali, no palco da
decisão, é uma sensação incrível. Imagina para alguém com 17 anos, iniciando a
vida e sendo movido por uma avalanche de cânticos e atmosfera incrível? Esse
alguém era eu na final da Copa do Brasil de 2000.
O Cruzeiro foi tetra, pena, hexa depois. Havia sido campeão
da Libertadores três anos antes. Mas a emoção que aquele jogo passou, não tenho
dúvidas, foi a maior que já senti. Cruzeiro de André, Muller, Fábio Júnior,
Sorin, Viveros, Oseas, Clebão, Ricardinho e ele, Giovanni, o predestinado.
Giovanni, dois anos antes, havia sido emprestado ao América, onde não teve
tanta chance e quase foi dispensado pelo Cruzeiro em 1999, com Levir Culpi. E
aquele seria o jogo que marcaria a vida dele e de milhões de cruzeirenses.
Na antiga cadeira de setor do Mineirão, abaixo das arquibancadas
e no nível do gramado, lembro do gol de Marcelinho Paraíba, que silenciou o
Gigante da Pampulha, mas a torcida, apenas de forma momentânea. Vi e ouvi
choros por perto, de quem estava acreditando mas, por algum motivo, começara a
duvidar daqueles guerreiros que estavam em campo. Talvez, até pelo fato do
técnico, Marco Aurélio, fazer sua despedida. Ainda que fosse um treinador de
final, o Cruzeiro havia anunciado, antes do jogo, a chegada de Luiz Felipe
Scolari. Ou seja, haveria troca no comando e os jogadores poderiam não se
dedicar como a torcida esperava.
No entanto, as coisas começaram a mudar quando Ricardinho
acionou Muller que, com um tapa, pôs Fábio Júnior frente a frente com Rogério
Ceni. E ali o fuzil AR15 do matador azul furou a barreira do gol são-paulino.
Tudo empatado aos 34min de jogo e uma esperança ressurgiu. O empate ainda daria
o título, naquela época, ao São Paulo, por ter feito gol na casa do adversário.
O primeiro jogo havia terminado em 0 a 0.
O tempo foi passando e o torcedor voltou a ficar apreensivo.
Clebão, aos 41min, deu um bico e a bola foi parar nas mãos de Rogério. A
sensação de tristeza e apreensão voltara. Não apenas naquelas pessoas que
haviam começado a chorar quando o gol do adversário saiu, mas de todos no Mineirão.
Jovens, adultos e idosos roíam as unhas e torcidam pelo lance que decidiria a
partida.
E o lance veio aos 44min, quando a bola, curiosamente,
estava com o São Paulo, que trocava passes no meio e o Cruzeiro estava
recusado. Levir Culpi, aquele mesmo, que quase mandou Giovanni embora no ano
anterior, havia tirado todos seus atacantes e recuado o time. Pôs um tal Axel
em campo, jogador rodado, experiente, com a função de marcar e parar o jogo. E
foi justamente Axel que errou um passe no meio-campo, recuando a bola de forma
equivocada para Rogério Pinheiro, que perdeu na corrida para o menino Giovanni.
O zagueiro não teve outra alternativa que não parar o atacante celeste com
falta e levar o cartão vermelho.
O lance estava ali. Poucos metros da grande área. Mas o
tempo estava correndo e era mais um adversário contra. O São Paulo não
respeitava a distância da barreira de 9,15m, ficando ali, entre 7,7m e 7,9m,
como se pode ver, hoje, no Youtube. Quem batia faltas no Cruzeiro era
Ricardinho, que estava ali, próximo de Giovanni. Contudo, o atacante de 20 anos
naquele momento, pediu a bola. Muller, aos berros, falava para ele bater forte.
Enquanto isso, Alberto Rodrigues dizia: “Muller o aconselha”; Luciano do Valle
falava: “Muller fala para Giovanni bater com fé”; “Cleber Machado ecoava um
“Muller está bravo”. A torcida estava tensa e esperava, do jovem, o gol do
título. E num chute, de falta, que mais parecia um pênalti, diria Albertinho,
Giovanni estufou as redes de Rogério. Poucos se lembram que o volante Donizete
Oliveira, na hora da cobrança, deu um tranco na barreira, que abriu. A bola
passou debaixo das pernas do volante Axel, aquele mesmo que Levir havia optado
por entrar e esfriar o jogo e que errou no passe que originou a falta.
O mundo deu voltas para Levir. O seu time acabou sendo
derrotado com o gol do atacante que ele não soube aproveitar um ano antes, por
erro de um jogador que ele acreditou que venceria aquela final para “fechar o
meio”. Mas aí vocês vão perguntar: “Mas e aquele lance que teve logo em
seguida, quando Clebão salvou em cima da linha?”. Sim, teve, sim, esse lance.
Marcelinho Paraíba, novamente, quase marcou. Numa defesa monumental, André
salvou o Cruzeiro e Cléber, antes que Raí chegasse, deu um bico para longe”.
E aí? Realmente não foi o jogo mais emocionante? Logicamente
aquele jogo traz várias outras perguntas. Por exemplo: o que Marco Aurélio
queria orientar o time logo após o gol de Giovanni? Algo que nunca entendi. E
onde está a menina de óculos, que pulou tanto após aquele gol e que virou
lembrança junto ao gol? Até hoje, vendo e revendo esse jogo, é possível se
emocionar. E como é bom lembrar que estar presente a essa partida histórica é
algo que ficou marcado eternamente na memória.